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Arões - Tempo de Antanhos

por darasola, em 07.06.10

 

No passado dia 29 de Maio, participei num evento especial. Organizada pelo Grupo Folclórico Terras de Arões, a actividade do tempo de Antanhos era uma descoberta para mim, nem sabia muito bem ao que ia. O cartaz falava da recriação de "cenas e retratos" rurais de antigamente, mas isso pouco dizia. No entanto, sabia que os eventos dos grupo de Arões eram muito animados, pois já tinha participado na subida do rio Teixeira e tinha adorado.
O encontro estava marcado na aldeia de Salgueira, pelo que tive de subir a serra da Freita para descer pela vertente Sul e à hora marcada lá estava no ponto marcado. Pouco a pouco o grupo foi-se compondo e apenas tivemos de aguardar pela malta do grupo Seita de Oliveira do Hospital.
Depois de levar os veículos até à aldeia de Chão do Carvalho por sugestão da organização, visto que o percurso iniciava lá, demos início à caminhada que foi percorrendo o centro das aldeias de Salgueira, Ervedoso, souto Mau, Arões e de volta Chão de Carvalho. O trajecto alternava entre estrada e estradões e caminhos florestais, com a malta do grupo Seita a destacar-se pela boa disposição e pela amena cavaqueira.
Chegados à aldeia de Ervedoso, a barriga já ia dando horas e fomos presenteados com petisco locais e à moda antiga: broa de milho com mel, azeitonas e um vinho local. Que bem que soube essa pequena merenda. Ali mesmo tivemos direito à primeira reconstituição: a estercada. O que é? Simplesmente o acto de tirar o estrume para gigas que eram normalmente carregadas pelas mulheres até aos campos que haviam de ser lavrados. A tarefa de arrancar o estrume cabia aos homens. Os figurantes, membros do rancho, estavam trajados a rigor, o que conferia à cena um carácter fidedigno. Em grupo, fomos seguindo as mulheres carregadas com o estrume à cabeça. O dia estava quente e certamente não terá sido uma tarefa das mais agradáveis, mas no regresso ainda tinham fôlego e alegria suficiente para cantar uma série de músicas tradicionais.
Seguimos então caminho, pouco depois alguns elementos do grupo não deixaram de se "meter" com uma senhora à beira da casa de quem passámos. "- Aí que calor! Aí que sede!" A resposta foi pronta e generosamente convidou toda a gente para a adega para provar o vinho. É também disto que se pode encontrar nas caminhadas: pessoas afáveis, generosas e sinceras que prontamente trocam um dedo de conversa, procurando saber de onde somos e o que achamos das suas terras. Despedimo-nos agradecendo a sua generosidade e seguimos caminho.
Voltaríamos a parar na aldeia de Souto Mau, no edifício da sede do Rancho Folclórico de Arões: uma casa antiga e ampla que foi entretanto cedida e recuperada pela associação. É um edifício interessante, não tanto pelo exterior, mas sim pelo interior onde encontrámos um espaço enorme debaixo do alpendre e junto ao antigo lagar com uma prensa tradicional. Novamente uma "bucha": presunto, chouriços, vinho, sumos, broa, etc. Ainda houve oportunidade para uma experiência inédita: provar cebola com mel, por sugestão da professora. Acho que poderia citar o que disse Fernando Pessoa acerca da Coca-Cola, "primeiro estranha-se e depois entranha-se", no entanto, acho que não chegará a entranhar-se. Os sabores da cebola e do mel anulam-se e cria uma mistura de sabores nova. Mas acho que haverá gente que nunca voltará a repetir a experiência... Depois de bem encher a barriga, a vontade de caminhar fazia-se pouca, mas tínhamos de recomeçar, ainda por cima a subir até à próxima aldeia.
Nesse local, tivemos oportunidade de observar um ferreiro na sua oficina a temperar o ferro para realizar uma machado. Um senhor idoso, enfiado na escuridão da sua oficina manifestava uma evidente alegria por poder mostrar a sua arte: "- Olhem agora, preparem-se! Agora é que interessa!" - dizia ele, para que nos preparássemos para registar para a eternidade o seu trabalho. Curioso foi o utensílio usado para moldar a lâmina do machado: um corno de carneiro... Lá nos despedimos do senhor, com as pernas pesadas e a pedirem para um esforço contínuo e não, sucessivas paragens.
Na mesma aldeia, a poucos metros do ferreiro, voltaríamos a ser presenteado com nova oferta de broa e azeitonas, de uma senhora que nos propôs a visita a sua oficina de trabalho com dois teares tradicionais, onde preparava o linho. O cuidado na preparação era evidente, visto que a senhora tinha expostas as várias etapas do linho: desde a semente até ao produto final, passando pela balde com alguns pés bem verdinhos dessa planta. Uma visita muito pedagógica sem dúvida.
Na aldeia de Arões, visitámos a loja das artesãs de Arões, um pequeno grupo de mulheres, que produz roupas segundo os métodos tradicionais, onde estavam expostos vários tipos de roupas.
A partir daí, iniciámos o percurso que nos levaria de volta à aldeia de ??? onde tinham ficado os carros.
Mas as actividades não tinham terminado, antes pelo contrário. À nossa espera estavam os elementos do rancho, junto a uma eira e a um canastro (espigueiro), para recolher a erva seca e mostrar como se fazem "cachopas" (fardos de palha atados com uma fiteira). Depois, pudemos assistir e até participar na tosquia de duas ovelhas. Aí, comprovámos que "a viola quer-se na mão do tocador", pois a simpática dona das ovelhas mostrava-nos como era possível realizar essa complicada tarefa com segurança e rapidez.
Depois do "trabalho": a festa. Começaram as danças e o bailarico, misturados com cânticos tradicionais. Era vê-las a rodopiar com os seus vestidos tradicionais e a saltitar no palco improvisado da eira simplesmente com socas calçadas. Era ver os sorrisos dos elementos do rancho, dos que participavam e dos que observavam (grupo onde me incluía).
A seguir ao bailarico foram servidos uns rojões feitos ali mesmo, junto à eira, à fogueira numa panela antiga de ferro e quaisquer linhas que pudesse escrever não poderia nunca transcrever o cheiro agradável que deles emanava e o sabor então... nem se fala. Comidos assim mesmo, só com broa. Uma verdadeira iguaria! Para culminar, ainda havia um caldo, daqueles à moda antiga com couves, cenoura, batata, feijão, arros e carne... um caldo de sustento. Nunca pensei estar a comer um caldo daqueles às 17h da tarde, mas a verdade é que me soube pela vida. De barrigas cheias ainda se tentou uma moda de cantares ao desafio, mas a nossa falta de inspiração não estava à altura do mestre de cerimónias e ninguém o ousou desafiar. Os mais resistentes ainda foram continuando, comendo e conversando, mas acabei por dar por terminado este dia muito bem passado.
Gostei imenso desta iniciativa que nos mostra o que pode enriquecer uma actividade pedestre. Com efeito, se o percurso pedestre podia ser considerado sem grande interesse, pois, a não ser o antigo caminho dos funerais, os outros eram apenas caminhos florestais, a verdade é que ao juntar-lhe todos estes aspectos culturais, o mesmo acabou por sair extremamente enriquecido e valorizado. Acabou por ser uma dia divertimento, de convívio, de aprendizagens e descobertas sempre com o aspecto do físico e da saúde por fundo.
Espero poder participar em outras actividades organizadas por gentes de Arões.
Boas caminhadas
Darasola

 

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